Antigo espaço gerador de energia das Indústrias Matarazzo passou a ser símbolo de eventos sócio-culturais e, em março, abre definitivamente as portas para a ocupação artística. 
Os paulistanos mais desavisados que passam pela Avenida Francisco Matarazzo não imaginam a beleza arquitetônica que o muro pichado do número 2000 esconde. Este é o endereço da Casa das Caldeiras, espaço que serviu como gerador de energia das Indústrias Francisco Matarazzo e, desde o início de 1999, funciona como local diferenciado para eventos e palco de projetos culturais.
Quem entra pelos portões de acesso da Avenida, depara-se com uma grande área verde, que serve como estacionamento para os carros de luxo e como palco dos artistas residentes, que inclusive aproveitam a locomotiva estacionada próxima à entrada principal como cenário. Ao atravessar a passarela, o visitante encontra o Salão Principal. Aquele que se impressiona com o tamanho e com a estrutura moderna desta área não pode imaginar a arquitetura antiga e rústica dos túneis e das tubulações, localizados um piso abaixo. É este contraste entre o novo e o antigo que faz da Casa das Caldeiras um lugar inusitado e inspirador.
Em 1986, o local foi tombado e considerado patrimônio histórico. Porém, o edifício é privado e sua administração é autônoma. “A renda da locação do espaço para eventos possibilita que a Casa das Caldeiras seja mantida nas mais perfeitas condições”, afirma Karina Saccomano, diretora do local e arquiteta. Com as adequações e revitalização do espaço, a ocupação artística foi ganhando naturalmente destaque e interesse. A partir de março de 2008, o local torna-se definitivamente sinônimo de efervescência cultural.
Durante o processo de tombamento e de restauro, o local teve a liberação de seu uso como espaço de eventos. Por ter a fama de espaço diferenciado, a Casa das Caldeiras já foi palco de lançamentos, campanhas e promoções, casamentos e outros eventos sociais. Em meio aos enormes galpões, extensas chaminés e caldeiras tubulares, as grandes empresas acharam um meio de agregar valor valendo-se do contraste do espaço.
A empresa ainda realiza eventos comerciais e cobra R$ 15 mil só pela locação do espaço: "selecionamos os eventos, não permitimos mais festas pagantes. Não queremos que a imagem da Casa das Caldeiras se desgaste", diz a administradora. O rendimento dos eventos comerciais fez com que a prefeitura de São Paulo lutasse na justiça por sua administração. “Acreditamos que as manobras políticas e os oportunismos ainda não são capazes de cercear os direitos protegidos por lei dos cidadãos”, defende Karina.
Estes eventos possibilitaram a autonomia da administração sobre o espaço, que estabeleceu como objetivo trabalhar com projetos artísticos que explorassem a versatilidade das grandes e pequenas áreas, internas e externas da Casa. Os grupos residentes provaram que sabem aproveitar melhor o espaço do que as grandes empresas, utilizando desde os túneis de 2,5 m de diâmetro em tijolos aparentes ao muro erguido ao lado de um caminho de paralelepípedos e, até mesmo, o ruído dos trens que passam ao lado do local. Cada tijolo do lugar recebe uma função ou uma importância cênica.
O espetáculo Elogio do crime, por exemplo, realizado ano pelo grupo Teatro de Alvenaria, fez o público deslocar-se entre as passagens dos túneis da Casa, pelos galpões, pelo pátio, aproveitando as caldeiras: “cada cantinho, cada sala se completava com as cenas da peça”, conta Rafael Castilho, ator do grupo. O espaço torna-se personagem em muitos espetáculos e proporciona ao público uma incursão pela memória arquitetônica da Casa.
Com o apoio do Banco Société Générale e do Ministério da Cultura, terá inicio um projeto com diversos programas, como o projeto “Obras em construção” que antecipa os espetáculos dos grupos residentes. Já o programa “Todo Domingo” pretende trabalhar com o conceito de Arte, Patrimônio, Território, e é com este projeto que a Casa das Caldeiras torna-se aberta à gratuita visitação. O público poderá explorar os espaços com o acompanhamento de monitores e visitar a exposição multimídia. Para os interessados em conhecer este espaço tão comentado, que ganha um toque peculiar ao entardecer, a Casa das Caldeiras abre as portas a partir de 22 de Março.
Casa das Caldeiras
Av. Francisco Matarazzo, 2.000.
Água Branca, São Paulo, SP.
Tel. 011 3873-6696.