quarta-feira, 30 de abril de 2008

RUSSIAN RED - AMEI!


AMEI! Com o alter ego de Russain Red, Loudes Fernández me conquistou com o disco I love your Glasses. Com os seus 22 anos, a madrileña tem um timbre de voz agradavelmente folk.

A primeira canção "Cigarettes" tem vídeo no youtube (http://www.youtube.com/watch?v=qCvrQFRyz6M&feature=related) e é a música predileta de quem procura a cantora no myspace (http://www.myspace.com/russianready). "Cigarettes" cumpre com perfeição o papel de música de abertura de álbum: desperta a curiosidade de quem ouve, mas a música mais linda do álbum, na minha opinião é "No Past Land"

Também se destacam composições como "Take me Home" e o single "They don't believe", que me lembrou o personagem de Hair, Jorge Berger, cantando "Manchester England, England..." , mas isso é viagem minha, claro, apesar que estas duas músicas são conhecidas por possuir certo aroma cinematográfico. Não é de estranhar que Russian Red inclui a música de "El rey de la montaña", filme dirigido por Gonzalo Lopez Gallego e protagonizado por Leonardo Sbaraglia.

Alguns dizem que ela se assemelha a Joanna Newson, mas menos menos erudita e mais folker. Para o meu gosto, Lourdes supera Joanna!


Russian Red,
I love your glasses (2008)

1. Cigarettes
2. No Past Land
3. They Don’t Believe
4. Gone, Play On
5. Hold It Inside
6. Nice Thick Feathers
7. Take Me Home
8. Kiss My Elbow
9. Walls Are Tired
10. Timing Is Crucial
11. Just Like A Wall
12. Girls Just Wanna Have Fun * (cover de quem? risos)

domingo, 27 de abril de 2008

Quando o mestre do new jornalism percebe as coisas despercebidas da cidade de New York.

Times Square, New York

No início dos anos 60, o repórter Gay Talese saiu pelas ruas de New York e descobriu que às 5 horas da manhã a New York é uma cidade totalmente diferente, cujas únicas pessoas que circulam pelas ruas são prostitutas que vão para os cafés. Os tocadores de trompete e barmen já regressaram para casa e são os pombos da Park Avenue que controlam a cidade: “É a hora mais suave de Manhattan”.
Neste mesmo artigo, Talese percebe: uma segunda Estátua da Liberdade, cuja única função seria confundir os desavisados; que o cinema Apollo passa filmes estrangeiros e tem boa freqüência devido ao público de surdo-mudos que lêem as legendas; que nos dias de chuva, quando o movimento do comércio caía 15% a 20%, "há menos suicídios em New York"; que existem mais tipos de gatos em New York do que o idealizador de Cats pode imaginar.
O livro Fama & Anonimato está repleto de informações pitorescas como estas, aparentemente inúteis, mas que, nas mãos de Talese ganham uma textura real, fazendo com que o leitor consiga ver as coisas que passam despercebidas no cotidiano nova-iorquino. “New York é uma cidade de coisas despercebidas” é a primeira reportagem de uma trilogia sobre New York que abre o livro. Especificamente nesta reportagem, o jornalista fala sobre o estranho universo urbano que é New York. Junto com as outras reportagens apresenta a conta-gotas as técnicas do que mais tarde foi concebido como "novo jornalismo" ou jornalismo literário.
Segundo Talese, “o novo jornalismo permite, na verdade exige, uma abordagem mais imaginativa da reportagem e consente que o escritor se intrometa na narrativa, se o desejar, conforme acontece com freqüência, ou que assuma papel de observador imparcial, como fazem outros, eu inclusive”. A capacidade do jornalista de narrar em primeira pessoa como observador interessado é uma das marcas de Talese. Na reportagem, o jornalista se porta apenas como um atento observador que percebe que no alto do Empire State Building existem formigas, por exemplo.
Os detalhes aparentemente inúteis da cidade simbolizam são colocados como situações de vida; como ”um esquema completo de comportamento e de bens através do qual as pessoas expressam a posição que exercem no mundo”, segundo Tom Wolfe. O detalhismo de Talese é capaz de dizer que pelas ruas da Big Apple passeiam 150 mil pessoas com olho de vidro, e que todo dia naquela cidade morrem 250 pessoas e nascem 460.
Entre a objetividade e o estilo, o jornalista opta em pelo estilo. Visto como um dos pilares da fase mais literária do jornalismo, Talese apresenta as “coisas despercebidas” como se fosse possível ter acesso a percepção destas com o uso da inteligência imaginativa. O jornalista mergulha na profundidade do que é observado: “procuro seguir discretamente o objeto de minhas reportagens, observando-o em situações reveladoras, anotando suas reações e as reações dos outros a ele”.
No caso da reportagem em questão, um exemplo de uma situação reveladora acontece quando Talese traça o perfil dos manequins da cidade como quase humanos e cheios de curvas sensuais, que “causam um estranho fascínio nos nova-iorquinos” e, por isso, alguns manequins são atacados por pervertidos, como a esbelta boneca de uma loja de White Plains encontrada no porão com as roupas despedaçadas e o corpo com evidência de tentativa de estupro. O atacante? “Um homenzinho tímido, o porteiro”.
A construção da reportagem é feita cena por cena. Muitas vezes o repórter fixa o olhar em um personagem por parágrafos: manequins sexualmente abusados, gatos com diferentes profissões, o que não acontece às 5 horas da manhã, o massagista matinal Biz Mackey, ex-lutador, os diferentes tipos de porteiro, os dias de chuva de New York, os cinemas e seus diferentes públicos, a segunda Estátua da Liberdade, as águia americanas com asas abertas que alcançam dez metros.
As técnicas do new jornalism são apresentadas aos poucos, desde o lead ou lide, quando, no primeiro parágrafo Talese responde logo de cara tudo que interessava em na notícia (quem, quando, como, onde, por que e a conseqüência) até na forma que a reportagem alinha o texto de alta qualidade a um olhar que foge aos lugares-comuns, fazendo com que o conteúdo que transcende o tema.
Um dos marcos do jornalismo literário de Gay Talese, Fama & Anonimato é uma declaração de amor à New York e ao ofício de repórter. Além de suas andanças, descobertas e bate-papos com personagens anônimos, o livro traz o famoso perfil de Frank Sinatra, que se recusou a dar entrevistas ao jornalista, cujo resultado é uma narrativa que revela mais do cantor do que qualquer outra reportagem. Já a percepção das coisas despercebidas, aparentemente detalhes sem graça ou importância, ganha um refinamento literário e imagético nas palavras do autor, construindo-se além da realidade.

terça-feira, 18 de março de 2008

CASA DAS CALDEIRAS


Antigo espaço gerador de energia das Indústrias Matarazzo passou a ser símbolo de eventos sócio-culturais e, em março, abre definitivamente as portas para a ocupação artística.


Os paulistanos mais desavisados que passam pela Avenida Francisco Matarazzo não imaginam a beleza arquitetônica que o muro pichado do número 2000 esconde. Este é o endereço da Casa das Caldeiras, espaço que serviu como gerador de energia das Indústrias Francisco Matarazzo e, desde o início de 1999, funciona como local diferenciado para eventos e palco de projetos culturais.

Quem entra pelos portões de acesso da Avenida, depara-se com uma grande área verde, que serve como estacionamento para os carros de luxo e como palco dos artistas residentes, que inclusive aproveitam a locomotiva estacionada próxima à entrada principal como cenário. Ao atravessar a passarela, o visitante encontra o Salão Principal. Aquele que se impressiona com o tamanho e com a estrutura moderna desta área não pode imaginar a arquitetura antiga e rústica dos túneis e das tubulações, localizados um piso abaixo. É este contraste entre o novo e o antigo que faz da Casa das Caldeiras um lugar inusitado e inspirador.

Em 1986, o local foi tombado e considerado patrimônio histórico. Porém, o edifício é privado e sua administração é autônoma. “A renda da locação do espaço para eventos possibilita que a Casa das Caldeiras seja mantida nas mais perfeitas condições”, afirma Karina Saccomano, diretora do local e arquiteta. Com as adequações e revitalização do espaço, a ocupação artística foi ganhando naturalmente destaque e interesse. A partir de março de 2008, o local torna-se definitivamente sinônimo de efervescência cultural.

Durante o processo de tombamento e de restauro, o local teve a liberação de seu uso como espaço de eventos. Por ter a fama de espaço diferenciado, a Casa das Caldeiras já foi palco de lançamentos, campanhas e promoções, casamentos e outros eventos sociais. Em meio aos enormes galpões, extensas chaminés e caldeiras tubulares, as grandes empresas acharam um meio de agregar valor valendo-se do contraste do espaço.

A empresa ainda realiza eventos comerciais e cobra R$ 15 mil só pela locação do espaço: "selecionamos os eventos, não permitimos mais festas pagantes. Não queremos que a imagem da Casa das Caldeiras se desgaste", diz a administradora. O rendimento dos eventos comerciais fez com que a prefeitura de São Paulo lutasse na justiça por sua administração. “Acreditamos que as manobras políticas e os oportunismos ainda não são capazes de cercear os direitos protegidos por lei dos cidadãos”, defende Karina.

Estes eventos possibilitaram a autonomia da administração sobre o espaço, que estabeleceu como objetivo trabalhar com projetos artísticos que explorassem a versatilidade das grandes e pequenas áreas, internas e externas da Casa. Os grupos residentes provaram que sabem aproveitar melhor o espaço do que as grandes empresas, utilizando desde os túneis de 2,5 m de diâmetro em tijolos aparentes ao muro erguido ao lado de um caminho de paralelepípedos e, até mesmo, o ruído dos trens que passam ao lado do local. Cada tijolo do lugar recebe uma função ou uma importância cênica.

O espetáculo Elogio do crime, por exemplo, realizado ano pelo grupo Teatro de Alvenaria, fez o público deslocar-se entre as passagens dos túneis da Casa, pelos galpões, pelo pátio, aproveitando as caldeiras: “cada cantinho, cada sala se completava com as cenas da peça”, conta Rafael Castilho, ator do grupo. O espaço torna-se personagem em muitos espetáculos e proporciona ao público uma incursão pela memória arquitetônica da Casa.

Com o apoio do Banco Société Générale e do Ministério da Cultura, terá inicio um projeto com diversos programas, como o projeto “Obras em construção” que antecipa os espetáculos dos grupos residentes. Já o programa “Todo Domingo” pretende trabalhar com o conceito de Arte, Patrimônio, Território, e é com este projeto que a Casa das Caldeiras torna-se aberta à gratuita visitação. O público poderá explorar os espaços com o acompanhamento de monitores e visitar a exposição multimídia. Para os interessados em conhecer este espaço tão comentado, que ganha um toque peculiar ao entardecer, a Casa das Caldeiras abre as portas a partir de 22 de Março.

Casa das Caldeiras
Av. Francisco Matarazzo, 2.000.
Água Branca, São Paulo, SP.
Tel. 011 3873-6696.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

MOLLOY, DE SAMUEL BECKETT


Saudades de Samuel Beckett. Lembrei-me estes dias da primeira vez em que li Beckett: a leitura de suas peças trouxe-me a apreciação pela dramaturgia, além da obsessão pelo próprio drama humano: a existência. Propositalmente, li Beckett há um mês meses atrás.

Molloy. Uma obra-prima. Primeira parte da famosa “trilogia do pós-guerra”. Aguardo ansiosamente pela nova tradução de Malone Morre e O Inominável. Este último já passara pelas minhas mãos, mas me recusei a ler quando souber que era o fim de um novo relacionamento de três partes entre mim e Beckett. Não, não posso adiantar o que acredito que será, no final da trilogia, a possibilidade da expressão, em que Beckett usa da própria linguagem da impossibilidade para afirmar a impossibilidade do “expressar-se”.

Beckett me consome. Ele me consome, principalmente através de sua linguagem; "esmigalhamento, do desmoronamento raivoso", como diz Moran, o segundo narrador de Molloy. Fúria. Uma fúria pacífica, tal como em O Primeiro Amor. Mas, agora, não posso falar deste livro por duas simples razões: a primeira é Molloy e a segunda é que vivo um primeiro amor; um bem diferente do de Beckett. Desta forma, quaisquer palavras que escrevesse sobre O Primeiro Amor seriam regadas de hipocrisia.

Retomemos, então, Molloy. O livro é concebido pelos críticos como uma “não-história”, que se passa em um “não-tempo”, com os “não-personagens”. Concordo. Tudo em Molloy não se realiza devido à impossibilidade e a ausência absoluta de algo a expressar, mesmo quando há sempre a preocupação de dizê-lo, como uma boa obra de Beckett.

O livro divide-se em duas partes: na primeira, o narrador-personagem, Molloy, arrasta-se por lugares estranhos, come e dorme mal, despreza a esperança e a própria dor e, sem explicação, parte em busca de sua mãe, a quem odeia obsessivamente. A segunda parte é o relatório de Moran, que parte a procura de Molloy.

Moran, no início, apresenta-se como o oposto de Molloy por ser ordenado, rígido, religioso, mas, aos poucos, vai absorvendo o negativo dos personagens de Beckett. Acaba adquirindo a mesma doença que Molloy, o mesmo fastio e ausência de sentido do objetivo de sua busca.
Beckett traga o leitor pelo absurdo lingüístico e existencial de Molloy. Ler Beckett é uma quase existência em que não há caminhos possíveis. As duas buscas se revelam sem fundamento; sem objetivo plausível para aqueles que buscam. Segundo Adorno, as composições de Beckett horrorizam os leitores, porém nenhum deles pode negar que os livros tratam daquilo que todos sabem, mas não ousam falar ou, no caso de Molloy, buscar.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

A CULPA É DO FIDEL



De carona com a grande notícia da semana – e eu me refiro à renúncia de Fidel Castro, aproveito para sugerir um filme cheio de humor, delicadeza e política suave: “La faute à Fidel” / “A culpa é do Fidel”.

Em primeiro lugar, como lembrou Luciana Coelho em seu artigo, “esqueça Cuba! Este filme não é sobre Fidel Castro”. O título surge da fala da babá cubana de Anna, exilada em Paris, que acredita que Fidel Castro é o responsável por todos os males que assola o mundo na época.

No ano de 1970, Anna, uma garota de nove anos, que mora em Paris e vive em um mundo extremamente ordenado entre a escola católica, a natação e a família, descobre-se em meio a uma mudança inevitável que tem início após a prisão e morte do seu tio espanhol, um comunista convicto.

Acostumada até então com o comodismo político de sua família, Anna não consegue compreender a princípio a decisão do pai, descendente de uma família franquista, que se torna um líder de um movimento esquerdista em Paris; nem da mãe, vinda de uma família de raízes aristocrática e católica de Bordeaux, que decide lutar pela liberdade de escolha das mulheres.

A mudança começa quando que os pais de Anna resolvem ir para o Chile para apoiar a eleição de Allende e retornam com calorosos ideais revolucionários, adaptando a família ao novo “estilo de vida”: um apartamento menor, onde Anna se vê obrigada a dormir e conviver com seu irmão François; o engajamento político de seus pais junto aos “barbudos vermelhos”; trocas constantes de babás, que acabam ampliando forçosamente o mundinho da menina com cardápios e histórias de seus respectivos países; a proibição de ler Mickey e beber Coca-Cola.

A resistência de Anna é feita a sua maneira; até mesmo na convivência com os tais barbudos, amigos da família, que ao lhe explicarem o mecanismo de opressão do sistema capitalista, ficam surpreendidos com a capacidade de contra-argumentação da garotinha de nove anos baseada na relação de perda e ganho. Esta e outras atitudes reacionárias de Anna lhe rendem o apelido de “petite momie”, dão ao filme um ar de humor e direcionam o espectador para uma reflexão descompromissada.

Mesmo com a resistência, a nova abordagem na criação da garota a desprende de pensamentos pré-estabelecidos, o que faz com que Anna, mesmo com pouca idade, tenha uma noção de mundo mais humanitária e uma postura crítica diante do que lhe é apresentado. Os espectadores mais sensíveis e mais didáticos podem conceber a mudança de educação como uma espécie de “mostruosidade pedagógica” pela forma que ocorre. Mas não é exatamente por este caminho que o enredo se desenrola, o que decepciona parte do público conservador, que talvez tenha se divertido demais na primeira parte da história.

Para o público mais desavisado, o filme começa como um relato de regime autoritário visto pelos olhos de uma criança. Mas o filme de Julie Gravas caminha para uma história sem excessos e com humor pueril sobre a perspicácia de uma criança aprendendo na prática o que é o socialismo e como a vida pode ser vivida nestes ideais.

Com este filme, a diretora Julie Gavras mostra sua inclinação para o cinema político, tal como o pai Constantin Costa Gavras (diretor e ex-militante), mas com uma vertente mais íntima, sutil e tenra. Embora o filme seja baseado no livro italiano Tutta Colpa di Fidel, de Domitilla Calamai, pode-se notar alguns traços autobiográficos, afinal, os acontecimentos políticos são vistos pelos olhos de uma filha de militante, que pode sofrer, mas que não perde a ternura, jamais.